15 de julho de 2011

A ficção e a realidade

         Sempre me perguntei: "pra quê serve a Literatura? Pra quê serve a ficção?" Na época em que cursava Letras na UFPB perguntei a alguns professores, mas nenhum me deu uma resposta que me satisfizesse. Não que eles estivessem errados, mas não achei suas respostas realmente esclarecedoras. A culpa não é deles, afinal existem várias respostas para essa pergunta, mas nenhuma tornou-se referência para solucionar dilema tão antigo.
            Alguns argumentos até que são lógicos, embora (me pareçam) insuficientes. Eis:
           - A ficção, a literatura serve para nos ajudar a lidar com a realidade;
          - Serve também para que possamos aprender com os erros dos outros e conhecer a nós mesmos;
           - Serve para obter conhecimento;
           - Serve como divertimento, prazer, passatempo;
         - Serve para "irmos" a lugares que nunca poderíamos ir se não fosse através da imaginação;
           - ou qualquer outra resposta que tente satisfazer esse questionamento utilitarista.
           Até aí tudo bem, mas...

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A FICÇÃO E A REALIDADE

              De certa forma, desde pequeno aprendi a viver mais no mundo da imaginação do que no mundo real. Tinha coleção de gibis (de Turma da Mônica a "Superman"), livros de todos os tipos, vídeo-cassete com desenhos gravados (isso mesmo, não sou da geração que cresceu com o DVD e com o Blue-Ray). Já na adolescência, a paixão pela ficção fez com que lesse vários livros, e aos poucos fosse buscando uma literatura mais "madura" (Tolstói, Shakespeare, Victor Hugo, Machado de Assis, entre outros). Daí pra o curso de Letras foi um passo. 
            Nunca deixei contudo que o academicismo me afastasse de alguns autores que figuravam na lista negra de alguns "doutores", ou seja, certos autores considerados "párias" como J. K. Howling e Paulo Coelho eram demonizados nas salas e corredores da universidade.
            Quando lia aquelas teses sobre obras literárias e mergulhava a fundo nesse mundo "criado" pelos autores considerados mais geniais, tinha medo de  mergulhar demais na ficção e me perder da realidade. Dilema esse que me acompanhou por muito tempo, até que a própria vida fez com que descobrisse a resposta: percebi que o problema não estava na utilidade (ou não-utilidade) da ficção, mas no uso que eu fazia dela.  
                Sempre achei que deveria ler o maior número de livros, assistir os filmes mais interessantes, escutar as músicas mais geniais, acompanhar as melhores séries e assistir os melhores curta-metragens. Admito que exagerei nessa busca, mas o grande problema é que esse mergulho na ficção fez com que me tornasse um idealista (não no bom sentido). Me tornei alguém que esperava o momento ideal, a oportunidade ideal, o curso ideal, os amigos ideais, a namorada ideal... Enfim quem faz isso esquece que a realidade é muito mais complicada. As coisas e pessoas NÃO SÃO ideais para nós, assim como NÃO SOMOS ideais para elas. E bom que seja assim. Se as coisas e pessoas fossem como esperamos, a vida perderia sua riqueza.
           Quem tem medo de arriscar não obtém grandes conquistas. Quem tem medo de sofrer não ama de verdade. Quem espera demais, perde grandes oportunidades. Precisamos da ficção, mas precisamos ainda mais da realidade.
             Conversando com minha mãe, comentei: "Não sei pra quê adianta ler tanto. Às vezes, tenho medo de me perder no meio de tantos livros, histórias e teorias." Ela, de maneira genial na sua simplicidade, respondeu: "Impossível, meu filho. A realidade é algo muito forte. Ela sempre te puxa de volta."
               A resposta pra esse dilema quem me deu foi uma mulher (minha mãe) sem formação acadêmica nenhuma. Tenho certeza que o fato de não ter um diploma universitário não a faz menos inteligente.


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              Os conhecimentos mais marcantes não estão nas bancas de doutorado das universidades, nem nos livros dos grandes gênios. Alguns conhecimentos são trazidos de surpresa pela vida. Só a experiência proporciona essas descobertas únicas e pessoais. Esses presentes do mundo, é claro, são apenas pra quem não tem medo de viver.

Um comentário:

Joel Cavalcante disse...

A ficção, a literatura pode ter várias funções. Mas para mim ela foi única.

Foram os livros que me ajudaram a me descobrir...

Veio uma cena agora em minha mente: um cara que está procurando ouro. Pega todas as ferramentas necessárias para sua empreitada. Escava, escava, escava. Cansa. Sofre as intempéries do tempo. Mesmo assim não desiste. Tem um objetivo: encontrar ouro.

Apesar dessa cena ser meio grotesca, comigo não foi diferente. Eu tinha não ouro para encontrar. Eu precisava me encontrar. Ir em busca de respostas que pudessem aliviar minhas angústias de sujeito que foge à heternormatividade compulsória, envolvido em uma instituição religiosa evangélica bem parecida com a igreja católica na idade média e em um meio social e familiar extremamente conservador, misógino, homofóbico e patriarcal... Minhas ferranenta foram os livros. Livros de todos os tipos. Dos consagrados pela crítica literária aos amaldiçoados, como Paulo Coelho, um dos escritores que mais influenciou minha procura existencial.

Sem a ficção jamais eu teria a realidade que tenho hoje...

Adorei o texto. Parabéns companheiro....